quarta-feira, 31 de julho de 2013

Querido panaca

Prefiro a panaquice dos apaixonados à sabedoria e sensatez dos melancólicos
Porque ela nos faz simples, é ingênua e se contenta com pouco
Às vezes nem sabe porque é contente
A sensatez nos puxa com força irremediável ao mundo que é mais gritante aos olhos
Aquele do qual não podemos fugir, apenas esquecer de vez em quando
E ao voltarmos à ele, lembraremos que outros mundos são possíveis
Principalmente o da panaquice

Pensar

Parece que agora dá pra entender porque tanta gente escreve
Pode ser vaidade
Ego ou  só vontade
Mas às vezes é necessidade
Os pensamentos viram fumaça dentro de uma caixa
E pra tirar a fumaça de lá
Só pelo duto da caneta
(Ou nossos braços no teclado, dá no mesmo)
Só usando nossos olhos
E nossa voz
Pra conseguir clarificar um pouquinho
O que esse tal de eu está resmungando

É isso coisa de gente grande?
Não conseguir pensar e precisar entender o que nem sabe?
A criança pensa menos que a gente
Ou só é mais inteligente?

Construção Brechtiana

Há aqueles que passam e levantam construção em nós
Uma sala a ser visitada de vez em quando
Esses já cumpriram seu papel
Mas há aqueles que passam e fazem em nós morada
E estaremos nela e ela em nós sem que possamos escolher
Esses são imprescindíveis

sábado, 29 de junho de 2013

Adeus

Venho me despedir. Adeus, adeus aos dias vividos juntos (mas acho que não
compartilhados);
Adeus aos momentos que foram de verdade (mas eram frágeis demais);
Adeus à vontade de pensar à frente;
Adeus ao companheirismo (quanto tempo ele durou?);
Adeus à admiração (pra algumas coisas ela vai ficar);
Adeus à vontade de conhecer (me forcei a me despedir dela);
Adeus ao faz-de-conta. Que bom pra nós.

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Cinto de segurança

O medo que dá é de não conseguir confiar em mais ninguém, em nenhuma palavra
dita em qualquer situação, principalmente as que almejam ser acreditadas. Essas
estão com os dias contados. Ninguém pode ser tão intenso, tão apaixonado,
tão revoltado, tão pacífico, tão tão. Não use as palavras pra te explicar, um
amigo já dizia "O importante não é o que você diz, mas sim os atos que por
esses dizeres são justificados". Não adianta, a língua paga pela nossa cabeça.
O medo que dá é de soltar o cinto de segurança, por mais que pareçamos bobos de
nos apegarmos tanto a ele. A questão do cinto é de auto-defesa, claro; o arremesso
é maior sem ele. Mas a aventura também. O frio na barriga, a diversão, a liberdade.
Me fizeram acreditar que eu deveria soltar o cinto. Quando estava quase apertando
o botão -a mão já estava perto, já tinha esticado mais o cinto pra poder alcançá-lo-
veio a freada. Como eu estava distraída, acabei me machucando um pouco, acontece.
Mas não considero que tenha soltado o cinto. Segurança em primeiro lugar. Por
enquanto.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Vende-se peixe

E esse medo de si mesmo, de onde vem? É ruim se sentir vivo às vezes, quando dói.
E geralmente dói. A gente não consegue mais aproveitar
a própria companhia? Quando era criança fazia isso tão bem,
eu era minha melhor companhia. Talvez fosse uma pessoa pior, mas
não doía tanto, pelo menos. As pessoas têm direito de chegar, ocupar dias da nossa
preciosa e curta vida, e depois saírem, quando cansaram de brincar? Deveria eu
também brincar mais? Tenho medo da seriedade das coisas, mas tenho mais medo
ainda das brincadeiras. Promessas têm sido feitas com uma facilidade nunca
antes vista; pelo menos nunca imaginada por mim, no mundo dos adultos. Dias têm
sido ocupados por outras vidas, deixando as nossas de lado pra absorver o que
vivem outras pessoas. Isso é bem sério. Tem gente que brinca de se
compartilhar. Mas quando a contrapartida não existe, é hora de desconfiar, dá
pra perceber quem gosta de se compartilhar mas não de doar seus dias à vida do
outro. De perto, a vida de ninguém é interessante de verdade. O que convence é
como a gente vende ela pros outros. Ou compartilha, como preferir.

Tudo doeu

Ahh, como poderei ser culta, ou pelo menos menos ignorante. As leituras vão
rechear meus dias, e serão leituras de alto nível- mas claro, um passo de cada
vez. Poderei desencostar da parede o violão que guarda horas e horas de diversão
entre amigos, apresentações informais, e no futuro, apresentações mais sérias, tudo
ali, latente. Primeiro caminhada, depois aperta um pouco, passa pra corrida,
bicicleta sempre, talvez escalada (se eu conhecer um pessoal desses bacaninhas
que sempre escalam). Aquelas celulites nunca mais, elas estão aqui por puro
relaxo meu. Mas isso vai mudar, já já. Serei tão completa, interessante, ativa,
viverei tão intensamente. Mal posso esperar. Aliás, conheci um carinha esses dias.
Ele é bem bonito, engraçado, todo seguro de si. Conversamos e rimos bastante,
ele pareceu perceber o quão legal eu posso ser. Ele tem me mandado umas mensagens,
estou respondendo mas já tô até vendo, o cara vai se apegar. Nessas duas semanas,
a gente se viu e dormimos juntos todos os dias. Ele é legal, até. Quer que eu
conheça a mãe dele. Comentei com um pessoal que estou com alguém, só pros mais
chegados e pros que a tensão é maior (eternos ex-casos). Hoje ele não mandou
mensagem ainda. Será que meu celular está com problema? Eu mando então, só
pra não quebrar a rotina. Hoje ele não me chamou de linda, como sempre. Eu o chamo
então. Hoje eu percebi que esqueci como é ser solteira. Gostei. Hoje o medo de
não estar agradando bateu mais forte. Pensei em tudo, passou. Hoje ele voltou
a ser um carinha qualquer que eu conheci num dia qualquer. Doeu.